Sexta-feira, Agosto 6

Em preto e branco


Senti saudades de você, que mal conheço. Nem pude ouvir a sua voz. Ah, naquele dia tudo ficou preto e branco. Como os clássicos do cinema. Só o seu sorriso não era datado. Daria tudo para que aquele momento tivesse sido eternizado. Teria uma lembrança sua. E em preto e branco.
Não sei quem você é. Essa curiosidade que me mantém vivo. Tamanho mistério faz meu coração descompassar loucamente. Simetria não mais. Nada mais faz sentido. Imaginar-te chorando já me deixava triste. É verdade, nem te conheço. Mas memorizei seu sorriso. E em preto e branco. Penso em como seria legal a gente ver São Paulo lá de cima, descalços, olhando a cidade envelhecer. Ver o pôr-do-sol cinzento em cima de um viaduto, de preferência em construção. Ver a fidelidade do cachorro com o seu companheiro de rua e sua caçamba de duas rodas. Fazer qualquer coisa, até mesmo nada. Ver o preto e branco do céu. Chorar naquele filme. Ouvir aquela música. O que mais dói é saber que você existe mas não sei quando poderei te encontrar.
E se um dia isso acontecer, vou tirar aquela foto preto e branco. E eternizar um momento de verdade.

Segunda-feira, Agosto 2

Olhando pela janela

Sentada em frente ao espelho pude ver os traços que o tempo deixou em inúmeras partes de meu corpo. Me senti feia, marcada, esquálida.
29 anos. Quem em sã consciência me daria essa idade? Minha vista cansada já me condenava aos 40. As ollheiras comiam minha face por inteiro, meu nariz, deformado.
Na vida vive-se de escolhas, e, eu, fiz muitas delas. Errei em muitas e não lembro se acertei em alguma.
Iludi-me em acreditar que podia fazer tudo. Passar por cima das pessoas, impor minha filosofia que só anos depois descobriria ser auto destrutiva. Deixei que usassem meu corpo, que fizessem lavagem de sentimentos e prazeres em seu interior. O mais frustrante disso tudo é que não tenho uma explicação plausível ou condizente que justifique todos os meus atos.
A única certeza é que adorava provocar o instinto sádico dentro das pessoas. As destruía e sei que fazia isso com perfeição. Parecia um sonho. E meu campo visual mostrava as peças de um teatro. Mas o engraçado é que as peças ficavam escassas e sem reposição imediata.
Tudo era massacrado. O que era rosa ficou turvo.


Hoje aqui estou nesse flat no meio da Pça da República, sozinha, kamikase em fase terminal, olhando um céu cinza. De longe vejo o cartaz do cinema. O filme é Cães de Aluguel de um tal Tarantino. O que será?


Bom mesmo era quando tinha 13 anos, ajudava mamãe a fazer o bolo, cantávamos juntas várias músicas dos Beatles, víamos os gatos se espreguiçarem na janela. Quando me sentia triste mamãe colocava um cigarro na boca e encarnava o Keith Richards fazendo aquela cara de bêbada. Fazia-me rir horrores.


Agora eu preciso descansar, e presumo que será para sempre.